Vazamento de dados de clientes agora tem seguro

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Jornal Valor, 28 de novembro de 2011

Os assaltos a banco ganharam uma nova modalidade neste ano. Saem os planos elaborados, o arsenal pesado e a busca pela caixa-forte e entram os criminosos que contam com apenas uma arma: o computador. Sony, Fundo Monetário Internacional (FMI), Citibank, Receita Federal do Brasil e Research in Motion, fabricante do Blackberry, são alguns exemplos de empresas que foram vítimas de assaltos, no caso, a seus bancos de dados. A invasão dos hackers, em alguns casos, pôs em risco valiosas informações financeiras de clientes.

É essa atmosfera de insegurança que as seguradoras pretendem explorar. Será lançado em dezembro no país um seguro específico para proteção de empresas com banco de dados contra prejuízos financeiros causados pelo vazamento de informações sigilosas dos consumidores ou usuários.

A cobertura, que já existe nos Estados Unidos, será trazida ao Brasil pela Chartis (antiga AIG). “Já temos cinco clientes prontos para fechar apólice”, diz Fabio Cabral, gerente de linhas financeiras da seguradora.

Outra que vai lançar no país uma versão do produto é a seguradora Liberty. Kelli Artin, que supervisiona a operação desse tipo de linha nos Estados Unidos, diz que o produto está sendo desenhado para estar na rua na primeira metade ano que vem. Junto com ele, será lançado também um seguro que protege desenvolvedores de softwares contra danos financeiros causados por falhas no serviço. “A tecnologia é um serviço que tem se globalizado muito. Esse tipo de cobertura vai ajudar as empresas brasileiras a cruzar fronteiras”, diz Artin.

Os seguros para empresas de tecnologia são a dianteira de um movimento que vem transformando as coberturas para erros e omissões de prestadores de serviço no Brasil – conhecidas, no mercado, como Responsabilidade Civil Profissional (E&O, em inglês). Esse tipo de seguro é tradicionalmente contratado por médicos e advogados, para proteção contra os milionários processos movidos por clientes insatisfeitos. As seguradoras querem ir além desse mercado, e buscam ganhar espaço em outras classes, como a de empresas de tecnologia, de engenharia e até escolas e agências de viagem.

A expectativa no setor é que a diversificação ajude o ramo a manter o ritmo de crescimento de 15% a 20% dos últimos anos em 2012. É o que espera Renato Perosa, gerente de linhas financeiras da corretora Aon. De janeiro a julho deste ano, o segmento de E&O movimentou R$ 54 milhões em prêmios de acordo com o último dado disponível na Superintendência de Seguros Privados (Susep). O valor representou um crescimento de 16,7% em relação a igual período de 2010.

A comparação com o seguro para administradores de empresa (D&O, na sigla em inglês), linha considerada irmã da dos prestadores de serviço, mostra o potencial de crescimento do mercado brasileiro. Em 2010, o seguro para administradores somou R$ 150 milhões em prêmios, quase o triplo do ramo de responsabilidade profissional. “O E&O está hoje onde o seguro de administradores estava há dez anos”, compara Perosa. Para Vinícius Jorge, gerente de linhas financeiras da Zurich, dentro de dois a três anos o total de prêmios das modalidades deve se equiparar.

Perosa acredita que ainda falta no mercado brasileiro um componente importante: o serviço. “Há pouca flexibilidade nas cláusulas das apólices de E&O no Brasil. Qualquer mudança tem que passar pela matriz e demora muito para ser feita”, critica. Ele conta que a Aon já perdeu negócios na área de engenharia e de empresas de mídia porque faltava jogo de cintura da seguradora na hora de decidir o que seria coberto.

A Liberty promete solucionar esse problema trazendo para o Brasil a experiência que tem no segmento no exterior. “Essa experiência nos ajuda a entender melhor os profissionais e a desenhar melhor as apólices”, diz Luiz Oliveira, que comanda a área de E&O da Liberty no Brasil. Fora o setor de tecnologia, a seguradora está de olho em agências de viagem e empresas de mídia.

A Zurich, líder do segmento, tem observado uma forte demanda por essas apólices no setor imobiliário, conta Vinícius Jorge. Outra frente de crescimento são apólices para o setor de engenharia, no ramo de óleo e de gás. Segundo Jorge, as coberturas de prestadores de serviços normalmente são vendidas em pacotes que incluem seguros de garantia e patrimonial. “Foi até uma surpresa como tem crescido esse mercado”, diz Jorge.

O crescimento dos negócios de franquias é um dos focos da Ace. Para Leandro Martinez, que comanda a carteira de linhas financeiras na seguradora, as apólices feitas por franqueados devem ganhar destaque no segmento – em especial no caso das agências de turismo. Martinez explica que a lei brasileira permite que o consumidor que se sentir lesado possa exigir do franqueador, não apenas do franqueado, reparação financeira. O seguro serviria, portanto, como escudo para a marca mãe.

Neste ano a Ace também lançou um seguro para administradores de escolas que cobre processos de assédio moral. “É um seguro contra bullying. Já fechamos algumas apólices em grandes centros urbanos”, conta Martinez, sem precisar o número de negócios.

As mudanças nos seguros para prestadores de serviços têm ligação com a entrada de empresas multinacionais no Brasil, avalia Paulo Baptista, que comanda linhas financeiras na corretora Marsh. “É uma cultura internacional que está chegando aqui”, diz. “Temos observado clientes internacionais pedindo que a empresa apresente comprovante de seguro para fechar contrato de prestação de serviço”.

responsabilidade civil profissional